É verdade, abracei a crônica. Por ser mais simples, vulgar e menos exigente. Falar sobre o que está ao meu alcance parece tão mais confortável, sobre o cotidiano voraz dessas pseudo-metrópoles que passo os dias pisando em cima. Poder escrever sobre estar sozinho, no meio dessa confusão periférica de mais de 16 milhões de pessoas. Sobre a morte, mas, principalmente, sobre a vida, sobre memória e amor.
Para o povo, o que nos resta depois dos 7 palmos de terra, é a memória. Memória do que é a nossa história, memória das lutas e das dificuldades, das soluções e da coletividade, do nosso propósito nessa sociedade doente e de toda a nossa trajetória e a trajetória dos que tombaram nessa estrada.
O que fica é o amor, os causos e aquelas velhas picuinhas que foram levadas até mesmo ao túmulo. Aquele dia em que passamos do limite, que houveram xingamentos e talvez um dedo na cara. O dia das palavras feias que agora ficaram ainda mais feias e também aqueles dias dos perdões, das falas preocupadas, dos momentos de êxtase e fascínio.
Às vezes a saudade bate, mas não temos tempo pra isso. Às vezes surge uma falta, uma tristeza repentina, mas se isso não existisse, que significado teriam as nossas vidas e tampouco as nossas mortes? Nós caminhamos, lutamos e construímos, somos produtos e partes de todo um desenvolvimento sócio-histórico que perdura séculos, estamos desde o primeiro segundo de vida caminhando para o fim. Fim que pode até chegar para nossos corpos físicos, mas que irão sempre, sucessivamente, estarem dando início a tantos outros inícios.
Não tenho medo da morte, nem do luto. Tenho medo daquelas regras gramaticais, daqueles poemas em versos, da sensação de estar perdido e sozinho em meio a 16 milhões de pessoas.
São Gonçalo, 2024
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