Descer do ônibus em frente ao pátio é como descer na terra do asfalto, do lixo, do esgoto, do calor e do fim do mundo. À primeira vista Alcântara não é encantadora, nem mesmo empolgante, é na realidade, em certo ponto, repugnante. O valão que um dia já foi um rio abundante, imponente, hoje é o símbolo de um lugar relegado à irrelevância. É difícil dizer, mas no fim, este Estado consegue levar para lama todos os lugares onde há povo, e só o que há naquele lugar é povo.
O Alcântara é pura expressão popular, suas esquinas e ruas apertadas são tão claustrofobicamente cheias de gente, que é até difícil conseguir reconhecer alguém em meio a tal formigueiro. São tantas pessoas, tantas diferenças e uma coisa maior que une todas: a classe. Entre todos os olhares diferentes, estilos diferentes, caminhos diferentes, as pessoas precisam lidar com aquele calor, com os mais variados problemas e com o fato de viver em uma cidade sabotada. A pobreza em São Gonçalo não se esconde, é uma fratura exposta, cuja principal hemorragia jorra pelos bueiros do calçadão da torre do relógio.
A memória que fica da Raul Veiga é a dos peixes. Aquele cheiro completamente putrefato, misturado a calçadas completamente sujas de lama e esgoto, contrastam com a intensa movimentação dos ônibus do fim do mundo, que levam o povo para cima e para baixo. Os buracos, os camelôs, os moto-táxis e até mesmo os chaveiros compõem o pandemônio diário, o completo caos que de urbano só tem as poucas frestas de asfalto.
Asfalto que é tomado pelas barracas na rua da feira, lá é onde tudo se encontra, até mesmo as coisas que ninguém quer encontrar. De certa forma, toda Alcântara é assim, uma completa confusão que tem coisas até demais.
Apesar de toda tentativa dos poderosos de apagamento, de toda tentativa de humilhação do povo, as pequeninas ruas de Alcântara ainda são território do povo e nelas as pessoas de diferentes formas conseguem se expressar, viver, batalhar e lutar dia a dia por sua sobrevivência. Alcântara é o símbolo de uma cidade periferia, uma cidade em que seu povo, somente tem somente seus próprios iguais para se apoiar.
São Gonçalo, 2021
