quarta-feira, 13 de maio de 2026

O Alcântara

Descer do ônibus em frente ao pátio é como descer na terra do asfalto, do lixo, do esgoto, do calor e do fim do mundo. À primeira vista Alcântara não é encantadora, nem mesmo empolgante, é na realidade, em certo ponto, repugnante. O valão que um dia já foi um rio abundante, imponente, hoje é o símbolo de um lugar relegado à irrelevância. É difícil dizer, mas no fim, este Estado consegue levar para lama todos os lugares onde há povo, e só o que há naquele lugar é povo. 

O Alcântara é pura expressão popular, suas esquinas e ruas apertadas são tão claustrofobicamente cheias de gente, que é até difícil conseguir reconhecer alguém em meio a tal formigueiro. São tantas pessoas, tantas diferenças e uma coisa maior que une todas: a classe. Entre todos os olhares diferentes, estilos diferentes, caminhos diferentes, as pessoas precisam lidar com aquele calor, com os mais variados problemas e com o fato de viver em uma cidade sabotada. A pobreza em São Gonçalo não se esconde, é uma fratura exposta, cuja principal hemorragia jorra pelos bueiros do calçadão da torre do relógio.

A memória que fica da Raul Veiga é a dos peixes. Aquele cheiro completamente putrefato, misturado a calçadas completamente sujas de lama e esgoto, contrastam com a intensa movimentação dos ônibus do fim do mundo, que levam o povo para cima e para baixo. Os buracos, os camelôs, os moto-táxis e até mesmo os chaveiros compõem o pandemônio diário, o completo caos que de urbano só tem as poucas frestas de asfalto. 

Asfalto que é tomado pelas barracas na rua da feira, lá é onde tudo se encontra, até mesmo as coisas que ninguém quer encontrar. De certa forma, toda Alcântara é assim, uma completa confusão que tem coisas até demais. 

Apesar de toda tentativa dos poderosos de apagamento, de toda tentativa de humilhação do povo, as pequeninas ruas de Alcântara ainda são território do povo e nelas as pessoas de diferentes formas conseguem se expressar, viver, batalhar e lutar dia a dia por sua sobrevivência. Alcântara é o símbolo de uma cidade periferia, uma cidade em que seu povo, somente tem somente seus próprios iguais para se apoiar.  

São Gonçalo, 2021


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Uma Crônica de Esperança

 Choveu sem parar nos últimos 5 dias, confesso que esse sol me surpreendeu de uma forma muito grande. A cidade está já agora abaixo da purpurina rosa desta época do ano, tudo aqui está ainda mais bonito, é inacreditável. O desconcertante céu azul quase dói, de tão majestoso, de tão gracioso. Não sei porque esse sentimento tão leve está se proliferando em meu peito. É quase involuntário essa sensação que surge dentro de mim, já estou na porta, já escutando a fundo o som dos tambores. 

Se mexer, é sobre isso. Sobre olhar algo e pensar: por que não? Estou respirando, estou suando e a música está exatamente no ponto onde tudo vale a pena. Esse é o meu Rio de Janeiro, o nosso Rio de Janeiro, a juventude ainda emana e ferve de dentro dos meus poros para fora. 

As batalhas de todo o ano, de todo tempo, não são tão intransponíveis, essa é a nossa vida e a nossa vida é cheia de esperança. É sobre isso que penso em alguns poucos dias quando acordo, nos dias que tenho mais consciência de onde estou, de qual é esse chão que piso. Essa manhã está tão linda, que dera se todas as manhãs fossem em fevereiro. 

Rio de Janeiro, 2026


Sem endereços

Meu punho nem escreve mais cartas, infelizmente cansou-se dos mesmos assuntos e das velhas melancolias. Disse-me “26 anos! É hora de deixar os velhos hábitos para trás”. Estou tentando, mas como não ser melancólico nessas velhas estradas? No fim, não são sempre os mesmos assuntos que dominam? 

É aquele mesmo vento frio, o mesmo cheiro fétido das ruas na qual se empilham lixo e chorume por todo canto. São aqueles velhos absurdos surdos de sempre, no qual é melhor ouvir calado sob pena de perder a sanidade. 

Os xingamentos escapam, impossível não escaparem, tem gente que curte morar em covil de ratos e diz que tá tudo bem. Hoje escutei que o Rio Alcântara é mais feio que o Rio Tietê, pelo amor de Deus né? 

Esse aí nunca foi na foz da artéria mais importante de São Gonçalo. Eu já fui. É uma vastidão tão grande de mangue, um maciço coberto de uma mata atlântica visceral, um bando de bicho pronto pra comer qualquer coisa que se mexa e principalmente, um movimento tão único de vida, que dá pra sentir só pelo cheiro de verde.

As pessoas gostam de exaltar a superficialidade, como é difícil ir até as raízes, como é difícil ter a coragem de ir até o fim. 

Pelo amor né, hoje eu vi uma Capivara em frente ao Pátio Alcântara. 

Estamos aqui, mais uma vez, está saindo uma carta novamente. Desta vez sem endereço, com as velhas reclamações, as velhas melancolias e lamúrias. Ainda não consegui deixar os velhos hábitos para trás, um deles é que costumo ser grosseiro por vezes, costumo me perder nos textos que começo e não sei onde vão dar, aqueles que começo querendo desabafar e termino como Renato Russo, dizendo que mais uma vez: “não pertenço a você”. 

Mais uma vez digo e afirmo, não vou me sujeitar a esse papel, aos velhos papéis, quero mesmo é navegar pelas artérias do Brasil. 

É fato consumado, já aceitei, todos os meus textos vão continuar flertando com cartas. É o melhor gênero literário, convenhamos. 

São Gonçalo, 2026


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A Magia de Janeiro

Essa é a magia de janeiro, onde tudo permanece exatamente igual, mesmo agora sendo tudo extremamente diferente. 

Acabou o ano, começou o novo ano, comemoremos!

Hoje amanheceu mais cedo. O sol apontou era umas cinco da manhã atrás do Maciço de Itaúna. Foram mais quantos hoje? 20? Esse cheiro de sangue é um horror, muitas vezes me faz ficar engasgado o dia inteiro. 

Infelizmente, me desculpe por dizer isto, todo esse cheiro podre de morte não irá embora. A tendência é que as tripas agora não mais sejam jogadas para debaixo do tapete, a tendência é que fiquem expostas para todos os lados. 

Convenhamos que é difícil se animar, mas meus pés não queimam no asfalto, tudo que aqui se finca no chão, fica, aqui é a Pedra Bonita onde o Estado nunca chegou, o vento não nos derruba tão fácil e ainda é janeiro.

O vento que agora está tão forte, não traz só a areia que cega, traz também a promessa de levar consigo embora toda a merda que está tão acumulada por todo canto. 

Que possamos pular juntos nesse rodamoinho. 


São Gonçalo, 2026




O Alcântara

Descer do ônibus em frente ao pátio é como descer na terra do asfalto, do lixo, do esgoto, do calor e do fim do mundo. À primeira vista Alcâ...