terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Sem endereços

Meu punho nem escreve mais cartas, infelizmente cansou-se dos mesmos assuntos e das velhas melancolias. Disse-me “26 anos! É hora de deixar os velhos hábitos para trás”. Estou tentando, mas como não ser melancólico nessas velhas estradas? No fim, não são sempre os mesmos assuntos que dominam? 

É aquele mesmo vento frio, o mesmo cheiro fétido das ruas na qual se empilham lixo e chorume por todo canto. São aqueles velhos absurdos surdos de sempre, no qual é melhor ouvir calado sob pena de perder a sanidade. 

Os xingamentos escapam, impossível não escaparem, tem gente que curte morar em covil de ratos e diz que tá tudo bem. Hoje escutei que o Rio Alcântara é mais feio que o Rio Tietê, pelo amor de Deus né? 

Esse aí nunca foi na foz da artéria mais importante de São Gonçalo. Eu já fui. É uma vastidão tão grande de mangue, um maciço coberto de uma mata atlântica visceral, um bando de bicho pronto pra comer qualquer coisa que se mexa e principalmente, um movimento tão único de vida, que dá pra sentir só pelo cheiro de verde.

As pessoas gostam de exaltar a superficialidade, como é difícil ir até as raízes, como é difícil ter a coragem de ir até o fim. 

Pelo amor né, hoje eu vi uma Capivara em frente ao Pátio Alcântara. 

Estamos aqui, mais uma vez, está saindo uma carta novamente. Desta vez sem endereço, com as velhas reclamações, as velhas melancolias e lamúrias. Ainda não consegui deixar os velhos hábitos para trás, um deles é que costumo ser grosseiro por vezes, costumo me perder nos textos que começo e não sei onde vão dar, aqueles que começo querendo desabafar e termino como Renato Russo, dizendo que mais uma vez: “não pertenço a você”. 

Mais uma vez digo e afirmo, não vou me sujeitar a esse papel, aos velhos papéis, quero mesmo é navegar pelas artérias do Brasil. 

É fato consumado, já aceitei, todos os meus textos vão continuar flertando com cartas. É o melhor gênero literário, convenhamos. 

São Gonçalo, 2026


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Uma Crônica de Esperança

 Choveu sem parar nos últimos 5 dias, confesso que esse sol me surpreendeu de uma forma muito grande. A cidade está já agora abaixo da purpu...