domingo, 6 de fevereiro de 2022

Patético

 Não escrevo pela literatura, ela nunca fez nada por mim. Já disse muitas vezes que para mim as frases são apenas um refúgio, são apenas a forma como consigo não explodir em meio às tantas coisas que se passam dentro da minha cabeça. Nunca prezei por poemas bonitos, nem crônicas bem escritas, nunca nem por um momento achei que qualquer um dos meus escritos não fossem absolutamente patéticos. Até porque, sempre que me olho no espelho é só isso que eu consigo sentir, por que eu olharia para minhas frases e enxergaria outra coisa? Não sou Fernando Pessoa, nunca nem quis ser, eu não consigo escrever mais do que meus olhos conseguem ver, não sou escritor, não sou artista. 

Eu não consigo nem sequer escrever inícios originais, são sempre os mesmos patéticos inícios e que sempre chegam nos mesmos patéticos finais, utilizando as mesmas patéticas palavras e eu nunca neguei, nunca neguei o quão patético são. Mas, aparentemente, ainda não ficou claro, ainda não ficou explícito o fato óbvio que não sou escritor, que não sou artista, que não escrevo minhas frases para agradar mas sim, para não surtar por ser uma pessoa patética


- São Gonçalo, 2022


terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Em Memória de Brumadinho

 Um estalo e de repente, a onda veio

Uma onda espessa e marrom,

que levou vidas, 

que levou sonhos 


Os porcos não se importam

A ordem e progresso para eles,

pode ser soterrar pessoas vivas,

pode ser matar sem nem mesmo permitir gritos,

ou pedidos de socorro 


A Vale do Rio Doce,

a Vale da Morte,

dos assassinatos

Acha que tudo está acabado,

que o assunto está finalizado 

Mas a lama não evapora no vento,

ela depois de seca,

endurece como rocha


As massas se lembram de Brumadinho,

de Mariana 

Os mortos da Vale Assassina, 

Irão ser vingados 


  • São Gonçalo, 2022


segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Dias de Atlas

 Tento levantar,

mas meus dedos não respondem,

Ainda não consigo superar que já amanheceu

o despertador já tocou,

o desespero já tomou conta,

Vai tudo começar mais uma vez,

e o matadouro está batendo a porta


Não descansei mais uma vez,

as lágrimas que secaram de ontem,

estão caindo novamente

Tento me conformar que vai começar de novo,

mas tudo que consigo é vomitar mais uma vez


Ainda não são 8 da manhã,

e o calor escaldante já começa a tortura,

berrar infelizmente não é uma opção 


De passo em passo, 

luto contra essa vontade enorme,

de me entregar ao fim 


Os minutos passam, 

mas a dor não

Não consigo parar de pensar, 

não consigo pensar, 

só quero não pensar

São tantas besteiras, 

é tanta raiva,

frustração 


As horas passam, como se fossem dias

Vivo no meio de surdos falantes,

e de falantes surdos 

A tristeza só aumenta conforme a meia-noite chega,

a solidão invade e da suas mãos com a ansiedade,

Tento desmaiar, mas tudo que consigo,

é me desesperar ao lembrar,

Que amanhã tudo se repetirá 


São Gonçalo, 2022


segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

Um Poema Para Você

 Já faz anos que escrevo


Escrevi para tantas pessoas,

sobre tantas coisas,

com palavras bonitas e tristes,

mas até hoje não sei como iniciar um poema,

até hoje não sei escrever em versos 


Tento começar do começo, 

mas não consigo esquecer o fim,

não sei segurar essa vontade de dizer na primeira frase,

Que amo você 


Penso em tantas metáforas

Sobre flores,

estrelas,

até mesmo jardins e oceanos

Mas com você é diferente,

pois nunca sei por que escrevo,

e em alguns dias nem sei pra quem escrevo


Tem dias que você é a vilã, 

a que me despedaça,  

fria como o ártico

Em outros momentos é como se fosse meu porto seguro,

Com uma leveza e carinho que só você me dá


Eu não sei como começar poemas, 

mas sei como terminam 

Terminam naqueles dias,

que olho para você e fica evidente,

evidente que amo você 


Niterói, 2021

 


domingo, 28 de novembro de 2021

Zumbi de Palmares, da Maré, do Salgueiro, do Brasil

Após sobreviver ao porão do navio da morte,

pisou em uma terra de sapê batido, 

já manchada de sangue nativo


Após as primeiras milhares de chibatadas,

se levantou junto aos seus camaradas,

vingou-se de seus senhores em busca de liberdade

Na mata, 

Palmares fez Zumbi

Chefe revolucionário que libertou seu povo,

que resistiu mais de um século 

Até hoje seu exemplo vive em todas as massas empobrecidas,

que se levantam diariamente contra o genocídio


Palmares agora é Maré, 

é Salgueiro, Alemão,

Jardim Catarina e Itararé,

todas as favelas deste país


O grito justo por justiça, 

por Ágata, João Pedro, Rhuan, tantos outros,

precisa ser respondido


Lembrar Zumbi, 

é lembrar Dandara, 

é lembrar de Palmares 

é lembrar da luta secular contra a escravidão,

contra o genocídio,

contra o velho Estado


É lembrar da resistência e bravura,

de quem deu sangue,

pela liberdade do povo preto 


São Gonçalo, 2021 


sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Um Amor do Pandemônio

 É verdade, detesto muitas coisas. Entrei naquela sala, naquele dia, e tudo que senti foi um medo e ódio profundo. Medo de estar voando muito longe, onde meus pés não podem tocar, medo de estar sendo jogado aos lobos sozinhos (e tudo que vi naquela tarde quente foram lobos). Dentre tantos rostos, tantas pessoas com suas histórias e construções sociais, a vi. No primeiro momento, pensei: ‘’se ela fosse do meu mundo, eu me apaixonaria’’. 

Para ser sincero, não foi isso, mas gosto de pensar que foi. Porque não demorou muito pra esse sentimento tomar conta de mim durante semanas e só hoje consigo perceber que foi isso mesmo. E eu odiava, odiava o fato de não concordar em nada com ela, de tudo que saia de sua boca me impactar tanto sem ter sido a intenção. Bastou um mínimo aceno e lá estávamos, de repente, depois de meses entrando em colisão, conversando todos os dias. Ela era do meu mundo, afinal de contas, não era uma inimiga.

No meio do pandemônio, tudo floresceu. Enquanto tudo estava obscuro e terrivelmente triste, nossa relação era azul, amarelo e verde. Passamos juntos pela estação das brumas e tudo que eu senti foi uma vontade assustadora de guardá-la dentro de meu coração com todas as minhas forças e não deixá-la ir embora nunca de minha vida.

Nossas tardes foram tão fortes que sempre pareciam durar muito mais do que de fato duravam, só valiam os sorrisos, os olhares, a nossa química implacável e as nossas pequenas aventuras. Aquelas fugas em meio ao caos marcaram tanto, que até hoje sonho com elas, aquelas horas de paz com certeza ficaram marcadas na minha memória. Os olhos dela sempre tão profundos me atormentaram por tantas semanas, que até hoje me intimido com eles. Aquele rosto tão insuportavelmente bonito, o jeito de falar que sempre me transmitiam uma vontade desesperada de querer escutar mais, de querer chegar cada vez mais perto dela, me levaram a sentimentos tão fortes que não era possível ignorar. A fascinação por alguém é algo que não podemos escolher ou controlar no final de contas, se apaixonar é se desesperar e me desesperei. 

É difícil estar crescendo pois tudo sempre parece estar mudando, o tempo todo acontecem tantas reviravoltas e a maior parte delas simplesmente não levam a lugar algum, dói bastante não conseguir corresponder às mais torpes e pequenas expectativas que nos são imposta, pelos os outros e por nós mesmos. A magia que senti dentro do meu coração, todo aquele sentimento tão pulsante, no final de contas pareceu ser algo somente individual, metafísico, idealista. Sonhei em adentrar ao infinito, todavia esqueci que o trecho Niterói-Manilha da BR-101 Sul termina em Niterói, na saída 322. 

Me perdi em meus anseios, em meus próprios sentimentos e nessa crônica. Eu odeio, eu odeio escrever, porque por mais que eu queira, palavras não mudam nada e o vento as espalha tanto que por muitas vezes elas voltam e me despedaçam com ainda mais força.   


Niterói, 2021


A Velha São Gonçalo

 O que me vem à cabeça quando alguém fala de São Gonçalo? 

Casa, é o que vem à minha cabeça. A vista da Praia da Luz, a saída 316 da BR-101, a correria do Alcântara, o intenso laranja do fim de tarde da Guanabara. Lembro também de todo o sangue pobre derramado diariamente pelo velho Estado, lembro do lixo que é jogado aos montes, dos 70% de esgoto não tratado, da condição desumana que é a realidade de muitos neste lugar. 

Mesmo assim, o povo de São Gonçalo é como o pico do Morro do Castro: um lugar que mesmo tão largado, ignorado, apagado, violado, consegue se manter imponente. Entre as balas perdidas e tempestades que tanto insistem em causar o caos, as pessoas que constroem esta cidade estão de pé todos os dias desafiando tudo que lhes é imposto. 

Para a juventude, a velha São Gonçalo é uma prisão invisível que os controla, fere, mata e oprime. Cresci aqui e vi com meus próprios olhos como ser jovem em uma cidade tão velha quanto esta é difícil, como é difícil não deixar o atrasado dominar por completo ou então não se dar por vencido. Tão bravos são os jovens da velha São Gonçalo, resistem a tantos ataques, lidam com seus dilemas da juventude em meio a um contexto de guerra diária, tanto contra a polícia, o tráfico, a milícia, quanto contra tudo que é mais atrasado nas massas profundas. Para ser jovem na velha São Gonçalo, é preciso deixar de lado as lágrimas durante o dia e lutar com a cabeça erguida para não sucumbir por completo.

Certa vez estive andando pela Estrada das Palmeiras, olhei para a serra do vulcão e me peguei embasbacado com sua beleza e imponência. Ao olhar para baixo, para frente, tive um choque ao observar que havia um mangue tomado não por animais, mas sim por pessoas que, no desespero, construíram suas casas em cima da lama espessa do manguezal. Eram pessoas tão miseráveis e que mesmo assim não baixavam a cabeça, estavam dispostas a se ajudarem, com coragem e bravura, enfrentando literalmente e não literalmente jacarés e cobras para poderem viver. 

Quando alguém me pergunta: "o que você pensa quando alguém fala em São Gonçalo?" A resposta é óbvia: "O lugar de um povo com coragem". 


São Gonçalo, 2021



O Alcântara

Descer do ônibus em frente ao pátio é como descer na terra do asfalto, do lixo, do esgoto, do calor e do fim do mundo. À primeira vista Alcâ...