quarta-feira, 13 de maio de 2026

O Alcântara

Descer do ônibus em frente ao pátio é como descer na terra do asfalto, do lixo, do esgoto, do calor e do fim do mundo. À primeira vista Alcântara não é encantadora, nem mesmo empolgante, é na realidade, em certo ponto, repugnante. O valão que um dia já foi um rio abundante, imponente, hoje é o símbolo de um lugar relegado à irrelevância. É difícil dizer, mas no fim, este Estado consegue levar para lama todos os lugares onde há povo, e só o que há naquele lugar é povo. 

O Alcântara é pura expressão popular, suas esquinas e ruas apertadas são tão claustrofobicamente cheias de gente, que é até difícil conseguir reconhecer alguém em meio a tal formigueiro. São tantas pessoas, tantas diferenças e uma coisa maior que une todas: a classe. Entre todos os olhares diferentes, estilos diferentes, caminhos diferentes, as pessoas precisam lidar com aquele calor, com os mais variados problemas e com o fato de viver em uma cidade sabotada. A pobreza em São Gonçalo não se esconde, é uma fratura exposta, cuja principal hemorragia jorra pelos bueiros do calçadão da torre do relógio.

A memória que fica da Raul Veiga é a dos peixes. Aquele cheiro completamente putrefato, misturado a calçadas completamente sujas de lama e esgoto, contrastam com a intensa movimentação dos ônibus do fim do mundo, que levam o povo para cima e para baixo. Os buracos, os camelôs, os moto-táxis e até mesmo os chaveiros compõem o pandemônio diário, o completo caos que de urbano só tem as poucas frestas de asfalto. 

Asfalto que é tomado pelas barracas na rua da feira, lá é onde tudo se encontra, até mesmo as coisas que ninguém quer encontrar. De certa forma, toda Alcântara é assim, uma completa confusão que tem coisas até demais. 

Apesar de toda tentativa dos poderosos de apagamento, de toda tentativa de humilhação do povo, as pequeninas ruas de Alcântara ainda são território do povo e nelas as pessoas de diferentes formas conseguem se expressar, viver, batalhar e lutar dia a dia por sua sobrevivência. Alcântara é o símbolo de uma cidade periferia, uma cidade em que seu povo, somente tem somente seus próprios iguais para se apoiar.  

São Gonçalo, 2021


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Uma Crônica de Esperança

 Choveu sem parar nos últimos 5 dias, confesso que esse sol me surpreendeu de uma forma muito grande. A cidade está já agora abaixo da purpurina rosa desta época do ano, tudo aqui está ainda mais bonito, é inacreditável. O desconcertante céu azul quase dói, de tão majestoso, de tão gracioso. Não sei porque esse sentimento tão leve está se proliferando em meu peito. É quase involuntário essa sensação que surge dentro de mim, já estou na porta, já escutando a fundo o som dos tambores. 

Se mexer, é sobre isso. Sobre olhar algo e pensar: por que não? Estou respirando, estou suando e a música está exatamente no ponto onde tudo vale a pena. Esse é o meu Rio de Janeiro, o nosso Rio de Janeiro, a juventude ainda emana e ferve de dentro dos meus poros para fora. 

As batalhas de todo o ano, de todo tempo, não são tão intransponíveis, essa é a nossa vida e a nossa vida é cheia de esperança. É sobre isso que penso em alguns poucos dias quando acordo, nos dias que tenho mais consciência de onde estou, de qual é esse chão que piso. Essa manhã está tão linda, que dera se todas as manhãs fossem em fevereiro. 

Rio de Janeiro, 2026


Sem endereços

Meu punho nem escreve mais cartas, infelizmente cansou-se dos mesmos assuntos e das velhas melancolias. Disse-me “26 anos! É hora de deixar os velhos hábitos para trás”. Estou tentando, mas como não ser melancólico nessas velhas estradas? No fim, não são sempre os mesmos assuntos que dominam? 

É aquele mesmo vento frio, o mesmo cheiro fétido das ruas na qual se empilham lixo e chorume por todo canto. São aqueles velhos absurdos surdos de sempre, no qual é melhor ouvir calado sob pena de perder a sanidade. 

Os xingamentos escapam, impossível não escaparem, tem gente que curte morar em covil de ratos e diz que tá tudo bem. Hoje escutei que o Rio Alcântara é mais feio que o Rio Tietê, pelo amor de Deus né? 

Esse aí nunca foi na foz da artéria mais importante de São Gonçalo. Eu já fui. É uma vastidão tão grande de mangue, um maciço coberto de uma mata atlântica visceral, um bando de bicho pronto pra comer qualquer coisa que se mexa e principalmente, um movimento tão único de vida, que dá pra sentir só pelo cheiro de verde.

As pessoas gostam de exaltar a superficialidade, como é difícil ir até as raízes, como é difícil ter a coragem de ir até o fim. 

Pelo amor né, hoje eu vi uma Capivara em frente ao Pátio Alcântara. 

Estamos aqui, mais uma vez, está saindo uma carta novamente. Desta vez sem endereço, com as velhas reclamações, as velhas melancolias e lamúrias. Ainda não consegui deixar os velhos hábitos para trás, um deles é que costumo ser grosseiro por vezes, costumo me perder nos textos que começo e não sei onde vão dar, aqueles que começo querendo desabafar e termino como Renato Russo, dizendo que mais uma vez: “não pertenço a você”. 

Mais uma vez digo e afirmo, não vou me sujeitar a esse papel, aos velhos papéis, quero mesmo é navegar pelas artérias do Brasil. 

É fato consumado, já aceitei, todos os meus textos vão continuar flertando com cartas. É o melhor gênero literário, convenhamos. 

São Gonçalo, 2026


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A Magia de Janeiro

Essa é a magia de janeiro, onde tudo permanece exatamente igual, mesmo agora sendo tudo extremamente diferente. 

Acabou o ano, começou o novo ano, comemoremos!

Hoje amanheceu mais cedo. O sol apontou era umas cinco da manhã atrás do Maciço de Itaúna. Foram mais quantos hoje? 20? Esse cheiro de sangue é um horror, muitas vezes me faz ficar engasgado o dia inteiro. 

Infelizmente, me desculpe por dizer isto, todo esse cheiro podre de morte não irá embora. A tendência é que as tripas agora não mais sejam jogadas para debaixo do tapete, a tendência é que fiquem expostas para todos os lados. 

Convenhamos que é difícil se animar, mas meus pés não queimam no asfalto, tudo que aqui se finca no chão, fica, aqui é a Pedra Bonita onde o Estado nunca chegou, o vento não nos derruba tão fácil e ainda é janeiro.

O vento que agora está tão forte, não traz só a areia que cega, traz também a promessa de levar consigo embora toda a merda que está tão acumulada por todo canto. 

Que possamos pular juntos nesse rodamoinho. 


São Gonçalo, 2026




sábado, 2 de agosto de 2025

Nunca pertenci a vocês

Tenho um sentimento estranho no peito e não é de certo só felicidade, estou com muita dificuldade de entender. Gostaria de dizer: “Um abraço pra você!”. Para tantos nomes, tantas cátedras e cavalos. Mas, sinceramente, seria bobo e no fundo não quero. 

Após tanto tempo, a linha de chegada não se parece como sempre imaginei, depois de tanto sangue e lágrimas, é difícil apreciar esse fim. 

Mas digo, para meus companheiros, para meus amigos, para todos das margens: eles não conseguem deter a nossa força, se a reconhecemos e entendemos de onde vem.

Se é certo que esse rio ainda não transbordou e que estamos longe de explodirmos esse caminho tão apertado, devemos sempre comemorar o fato de não termos nos afogados e estarmos nadando. Estamos nadando!

Juntos 

São Gonçalo, 2025


sexta-feira, 18 de abril de 2025

Fevereiro o Ano Todo

 É carnaval no Rio de Janeiro,

e me sinto inebriado

Pelo vento atlântico,

pela felicidade que emana de todos,

por sentir seu corpo quente junto ao meu


Nosso amor é tão cheio de cores

Tão de paixão e fervura,

que parece fevereiro o ano inteiro


É viciante, é apaixonante,

amar alguém tão viva, tão forte 

Ser amado de forma tão sublime,

delicada e intensa


É carnaval no Rio de Janeiro,

e estou inebriado

Pelo vento atlântico,

pela felicidade que é,

amar e ser amado por você


Rio de Janeiro, 2025


sexta-feira, 21 de março de 2025

É Rosa, a Cor do Meu Coração


Estava escolhendo entre um guaraviton e um biscoito isopor, quando pensei tão repentinamente em nós. Esses momentos tem acontecido com frequência, fecho os olhos e penso no final de verão laranja de Ponta Negra, onde meus olhos só sabiam encontrar seu rosto e meu peito pulsava de tanta felicidade. Nunca pensei que fosse rosa a cor que meu coração iria inundar. É um rosa claro com gosto doce de algodão, que se fez por toda parte.


Acho que é isso então, amar alguém, isso é amar você. Amar você é para mim como pedalar na pista da esquerda da BR-101, como descer a caixa d'água a noite, como apostar um racha com um 40 na 18 do Forte. É visceral, perigoso, assustadoramente viciante e enche meu âmago de felicidade, de vontade de nunca mais parar. 

Esse velho mundo é tão cruel com a juventude, às vezes até canalha, mas embora R$3,50 seja barato para um guaraviton, não tenho mais R$3 para o biscoito isopor. Tem dias que dói ser pobre, de fato, mas a vida precisa ser vivida com frescor e coragem. Sem medo dos dias ruins, das lágrimas de desespero, das caras feias e bichos papões. 

Por isso acabo pensando novamente, repentinamente, em nós. Penso que a cada barreira rompida, a cada aventura vivida, a cada dia que acordo e vejo você tão linda adormecida em meus braços, tenho mais certeza de que é rosa, agora, a minha cor favorita. 

Maricá, 2025

terça-feira, 18 de março de 2025

O Rio no Carnaval

O carnaval é tão cheio de cor, que várias delas só vemos nesta época do ano. O brilho nunca parece ser suficiente, porque para todos os lados o glitter parece mesmo ser eterno. 

É alegria que emana de todos os cantos, para todos lado são sorrisos que contagiam e um movimento que elucubra em nós uma vontade muito automática e sensitiva de se mexer em qualquer direção, em qualquer circunstância. 

O Rio de Janeiro consegue ser ainda mais bonito debaixo de glitter e com cheiro de Brahma quente, é inacreditável. Para todo lugar tem gente, gente, muita gente, muita gente mesmo. É só sair do ônibus para se contaminar com aquela aura, com a energia única que explode de todo canto durante o carnaval. 

É louco quem diz que não gosta do carnaval. Sai pra lá, comédia! A folia é popular, é democrática. É amarelo, é rosa, azul, verde e vermelho. São dias de tomar as ruas da amargura, da caretice e de encher a alma de alegria, para recomeçar um ano que ainda nem tinha começado. Feliz 2025! Esperamos que passe como passou o carnaval: cheio de alegria, festa e cor. 

São Gonçalo, 2025




quinta-feira, 13 de março de 2025

Carta ao Cruzeiro do Sul

 São Gonçalo, 13 de Março de 2025

Oi, como está?

Hoje o sol se infiltrou pela cortina e me acordou tão cedo que estou com sono até agora. Olhei em volta e lembrei que tínhamos que conversar. Percebi que nunca te disse o quanto amo a Estrada do Cruzeiro do Sul, por causa das árvores, mas também pela memória de andar na garupa daquela bicicleta prata. Às vezes penso que perdemos, porque olho em volta e sabe, tudo é muito difícil. Porém nesses últimos meses, olhar para trás só me dá mais certeza que aquela não era a vida que acredito, não era a vida que eu quero viver.

Escrevo essa carta pois estou inquieto, não consigo guardar para mim tantas coisas, tantas reflexões e opiniões. E uma dessas coisas é algo já conhecido: que a Barra da Tijuca além de tosca é feia, que a Zona Sul é o carrapato da Zona Norte, que Icarai fede e que se a luta de classes atravessa oceanos, ela também atravessa a linha 4 do Metrô Rio (Só talvez não consiga a integração do Bilhete Único). 

O silêncio, a inércia, a apatia, somente é reservada a quem pode, pois cria que dorme a PM mata e às vezes nem precisa dormir para isso acontecer. Quem paga a conta no final do dia, é o povo que segue lutando e morrendo sem direção alguma. Não existem cancelas fechadas na Avenida Central de Niterói, O 55A de lá não fica preso nos quebra molas do Bitinho. Eu gostaria que você soubesse que no Recanto das Acácias não dá para subir às nuvens com escadas rolantes de fumaça e pó, porque essas não saem do chão aqui. Para chegar no céu a gente sobe um em cima do outro, um dia chegaremos lá e quando esse dia chegar, não teremos medo de cair. Porque nesse mundo, a verdade é sangrenta sim e as fantasias de contos de fadas, são envoltas de frustrações e vazio. Desculpe senhor, senhora, mas sou até o fim pela verdade. E não tenho medo do sangue, nem das lágrimas, talvez eu tenha medo somente da minha namorada brava. 

E se for necessário, rumo à Praia da Beira! Pois a consciência além de um fardo, é, principalmente, liberdade!

Adeus, digo para a Estrada do Cruzeiro do Sul, não devo escrever novamente. Atenciosamente, João


 


segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Adeus, Ano Novo

 É difícil dizer adeus a um ano novo, mas nessas últimas semanas do ano, a despedida é inevitável. A vida tem dessas idas e vindas, e de uma forma muito clichê, afirmo essa afirmação tão afirmada mais uma vez. Esse foi de fato um ano de idas e vindas, de recomeços e novos caminhos, de esperança e empolgação, das correntes que se soltaram e de barulho nas margens. 

É difícil dizer adeus a um ano novo, porque o ardor do novo queima com gosto de réveillon. Esse ano pareceu que toda semana era uma virada diferente, a cada semana uma nova explosão, tempos de efervescência e de borboletas.

Não é que todas essas viradas foram fáceis, mas o que é fácil para o povo? A própria vida na terra, por exemplo: Quantas particularidades foram necessárias? Quantas contradições e inconsistências? Processos tão irregulares, entre séculos e séculos de existência, para chegar onde estamos.

Para viver no mundo real, é necessário não ser um covarde agarrado a velhas convenções, a velhas ideias e análises. Pois a contradição da matéria é infinita em sua finitude, não dá para fugir dela, é inútil vedar os olhos e ouvidos com medo. Pois a verdade não combina com a ignorância, nem mesmo a História gentil com ratos. 

Estou me despedindo. Desse ano novo, desse tempo gostoso, olhando para trás e tendo orgulho de que, sobretudo, é a vida real, e não a ideal, a que vivo. Pois é nela que reside a verdade, a beleza, e no frigir dos ovos, a verdadeira felicidade. Não a idealizada, a proletária. 

Adeus ano novo, o próximo já está a caminho. 

São Gonçalo, 2024



domingo, 4 de agosto de 2024

Sobre Pedrinhas e Dias Ensolarados

Sinto-me no dever de dizer, 

que sem nenhuma miséria ou tristeza, 

acordei em um sonho de outono


Com um gosto doce que ficou em minha boca, 

senti o frescor da juventude em meu peito,

e a brisa leve da Praia das Pedrinhas 

Confesso que estou um pouco febril,

me permiti a tranquilidade,

o recomeço,

dias ensolarados pelos sorrisos 


Mergulhei naqueles verdes tão lindos,

naveguei em águas desconhecidas,

e nem mesmo as pequenas chuvas me assustaram,

meu caíco agora tem motor


Nunca fui Weberiano, 

porque o material é muito mais visceral

De que importa os tipos ideais, 

se é o toque que nos arrepia? 

Se o concreto é que tudo que existe, 

se a vida está a todo momento mudando,

se a felicidade está em poder viver o real?


Para o inferno os planos perfeitos, 

e a tristeza 


Eu escolho a Praia das Pedrinhas,

a contradição da matéria,

os dias ensolarados pelos sorrisos,

a vida em sua constante inconstância 


São Gonçalo, 2024


domingo, 30 de junho de 2024

Somente um Texto

 Queria contar algumas histórias boas, algumas histórias sem metáforas e reflexões. Queria escrever sobre momentos perfeitos, de um dia perfeito. (Mesmo a perfeição não existindo, foi quase lá, vai, faltou pouco). Queria dizer, de verdade, coisas bonitas sobre um dia bonito. Queria explanar toda minha paixão, por essa nova fase da minha vida. 

Um domingo de sol no Rio de Janeiro e o céu sem nenhuma nuvem. Não era fevereiro, mas teve Flamengo. Não foi só quando a bola saiu da marca do pênalti, tocou os pés do goleiro batido no chão e entrou no gol, que senti todo meu corpo vibrar. 

Vibrei também quando acordei de manhã e olhei um alvorecer rosa, refletindo toda a crueza do Salgueiro em uma cor violeta que por um momento fez parecer um lugar de paz. Vibrei quando pude dizer pela manhã que ia comprar tudo para o café, compartilhando aquele momento pequeno de vitória com minha pessoa favorita. 

Quando passei pela roleta do ônibus senti que o dia seria especial, na fração de segundo que me deparei com aquele verde visceral que pulsava daqueles olhos, de uma forma sutil, toda vez que eu os observava. Vibrei com os sorrisos, com as conversas, com os olhares, abraços e com aquela companhia. 

O juiz apitou pela última vez, Flamengo 1-0. Fiquei feliz ao perceber que o dia estava longe do fim, que minha vida está longe do fim. Já disse muito, talvez tenha falado demais, mas tudo que veio depois não tem como ser mensurado em frases, me debulhei em algo completamente inefável. Além de tudo, vi uma maravilha vestindo outra maravilha, inesquecível. 

Não era fevereiro, era junho. Teve Flamengo, teve beleza, paz e até mesmo, algumas metáforas. É difícil contar uma história boa, ainda mais difícil contar uma história sobre um dia onde não houveram lágrimas. Mas às vezes um texto tem que ser exatamente, só um texto. Nem sempre as coisas precisam de drama ou metáforas, às vezes a felicidade basta.  

Rio de Janeiro, 2024


sábado, 15 de junho de 2024

Abracei a Crônica

É verdade, abracei a crônica. Por ser mais simples, vulgar e menos exigente. Falar sobre o que está ao meu alcance parece tão mais confortável, sobre o cotidiano voraz dessas pseudo-metrópoles que passo os dias pisando em cima. Poder escrever sobre estar sozinho, no meio dessa confusão periférica de mais de 16 milhões de pessoas. Sobre a morte, mas, principalmente, sobre a vida, sobre memória e amor. 

Para o povo, o que nos resta depois dos 7 palmos de terra, é a memória. Memória do que é a nossa história, memória das lutas e das dificuldades, das soluções e da coletividade, do nosso propósito nessa sociedade doente e de toda a nossa trajetória e a trajetória dos que tombaram nessa estrada. 

O que fica é o amor, os causos e aquelas velhas picuinhas que foram levadas até mesmo ao túmulo. Aquele dia em que passamos do limite, que houveram xingamentos e talvez um dedo na cara. O dia das palavras feias que agora ficaram ainda mais feias e também aqueles dias dos perdões, das falas preocupadas, dos momentos de êxtase e fascínio. 

Às vezes a saudade bate, mas não temos tempo pra isso. Às vezes surge uma falta, uma tristeza repentina, mas se isso não existisse, que significado teriam as nossas vidas e tampouco as nossas mortes? Nós caminhamos, lutamos e construímos, somos produtos e partes de todo um desenvolvimento sócio-histórico que perdura séculos, estamos desde o primeiro segundo de vida caminhando para o fim. Fim que pode até chegar para nossos corpos físicos, mas que irão sempre, sucessivamente, estarem dando início a tantos outros inícios. 

Não tenho medo da morte, nem do luto. Tenho medo daquelas regras gramaticais, daqueles poemas em versos, da sensação de estar perdido e sozinho em meio a 16 milhões de pessoas. 

São Gonçalo, 2024


sexta-feira, 7 de junho de 2024

Novo Tempo

Não tenho o que dizer sobre o sabor doce que ficou em minha boca durante esse início de outono, que tem parecido uma continuação do verão que não quis se despedir. O calor que tem massacrado, também tem sido testemunha de momentos tão surpreendentes que minha cabeça mal consegue processar. Tenho sentido em meus dedos um frescor tão doce, um sentimento em meu peito que pulsa esperança com tantos novos caminhos que tem se apresentado, momentos que tenho a absoluta certeza que serão lembrados no futuro como pontos de virada. 

Sabe, dizer que o mar é azul é redundante, mas o oceano atlântico, é realmente azul. Nem mesmo aquelas ondas tão bravas quebrando em cima daquele velho píer de madeira conseguem causar espanto, ou medo. O vento que tanto causa frio anuncia em uma sintonia muito baixa, que este é um novo tempo. 

Rio das Ostras, 2024

domingo, 19 de maio de 2024

Dias de Outono


Gostaria muito de escrever sobre esses tempos, mas faltam-me ideias. Faltam-me as ideias e faltam-me também as palavras, pois a felicidade às vezes é estranhamente inacreditável. 

É um medo que consome sem muita explicação mas com muita justificação, que devora o fígado, mas principalmente o pulmão. Sou um homem do Pontal, lá o vento quando muda de direção é sinal de tempestade. Se bem que nessas tardes de outono, que parecem mais de verão, as nuvens simplesmente sumiram. 

É um momento de deixar os velhos tempos para trás, de sentir na pele mais mudança, aceitar as gotas de suor e não temer todos os trovões dessa nova etapa, não temer nem mesmo os campos verdes tranquilos que se apresentam ao final da caminhada. 

São Gonçalo, 2024



 


quinta-feira, 2 de maio de 2024

As Borboletas

Dizem que as borboletas são sinais de mudança e de todas as crendices populares é uma das que mais gosto. Pois as borboletas são graciosas, alegres: verdadeiras alegorias de como a vida é curta e que todo dia é dia de viver. 

Tem sido um tempo de borboletas. São tantas lutas travadas que acaba sendo difícil comemorar, difícil saber a hora que podemos respirar fundo e somente olhar o horizonte de forma calma e pausada, sem desespero ou receio. De peito aberto ao vento, esperando a vida acontecer. 

Viver deste lado da cerca é lutar a todo momento e o que podemos fazer em meio às tormentas que mudam tudo de lugar, é entender sempre em qual lado estão as borboletas e não ter medo de voar em meio a elas. Abrir o peito para o novo, com paixão e tesão pelo frescor da alvorada. 

São Gonçalo, 2024

Um Dia Normal

 O sabor de ter um dia normal é como se deleitar em uma sintonia tão robusta de paz, de adentrar um ritmo tão leve que evoca os sentimentos mais ínfimos e pequenos. Aquele momento em que podemos fechar os olhos e bocejar bem fundo, sem medo do julgamento, sem qualquer peso. 

Tem dias que o complicado nos atormenta tanto, que o simples parece o que temos mais de precioso. Queria escrever hoje sobre um dia normal, um dia bom, daqueles que a gente lembra no calendário e que não aconteceu absolutamente nada grandioso ou planejado, que o que aconteceu foi simplesmente a vida caminhando em um caminho bem conhecido e até de certo modo clichê, mas que de fato foi um dia de olhar para dentro e poder respirar o mais profundamente possível e dizer:

 “Hoje não fui a história triste de sempre”. 

São Gonçalo, 2024




segunda-feira, 22 de abril de 2024

Ventos de Primavera

Tem soprado um vento de primavera para este lado da Baía. Mesmo que tímido, tem entrado e bagunçado de forma avassaladora essa temporada, tem sido tempo de uma ansiedade benigna, de ver diante dos meus olhos desconfiados as coisas entrando onde realmente deveriam estar. 

Tenho muitos medos e muitos deles não são tão justificáveis, confesso. Pode até parecer um pouco estranho, mas tenho um medo profundo da BR à noite. Depois das 22hrs, olhar para aquele mar e só ver refletido a lua em suas pequeninas ondas me dá medo. Sentir a cada passada de carreta, tão perto, uma sensação de pequeneza profunda, de uma insignificância retumbante diante daquela estrada que tem vida, é desesperador. O mais curioso é que ao mesmo tempo o impulso que vem diante de meu coração é de seguir cada vez mais rápido, de pedalar cada vez mais forte, pois estou vivo. Vivo diante daquelas carretas tão grandes, vivo em cima de toda aquela rodovia que grita e aterroriza, pedalando por cima das humilhações, das cátedras, da depressão, das velhas formas de vida. Mesmo em meio ao terror a bicicleta gira e o tesão toma conta, tenho uma queda pelo susto, um pacto com o terror da BR-101.  

Esse mês senti o vento da primavera soprar para esse lado da Baía de Guanabara, confesso que enquanto pedalava olhando o mar e a lua em meio a escuridão completa da BR, chorei. Um choro de primavera, um choro de mudança, um choro com gosto de vida. 

São Gonçalo, 2024 


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

A Lógica das Marés

Definitivamente não sei escrever. Porém pensei aqui comigo que falar sobre os meus sombrios sonhos desta quinta-feira não deve ser mais difícil do que entender esse vai e vem das marés da Baía de Guanabara. Ontem elas estavam tão altas pela manhã que por um momento pensei que fossem invadir a rua. Porém hoje estavam tão baixas que um cheiro de morte entrou forte em meus pulmões, me fazendo sentir uma vontade muito profunda e genuína de vomitar. 

Eu costumo sonhar com a Baía de Guanabara. Essa semana mesmo sonhei que estava navegando no meu caíco para a ilha de Jurubaiba. Eu e o mar, o sol e a maré.  Infelizmente uma voz lá do fundo me acordou e logo senti amargamente aquele cheiro de morte que estava por todo lugar, não saiu do quarto por nenhum segundo naquele dia. 

Tenho sonhos sombrios sobre mangues. Sobre mangues de lama espessa, aqueles que conseguem engolir histórias, que conseguem limpar até a mais poluída água que passa por ali. 

Hoje é quinta-feira. Tive um sonho desses. Sonhei que estava andando na Ary Parreiras e de repente todo aquele valão fedorento virava um mangue e me engolia, tentei lutar, mas de que adianta? A maré estava mais forte. A maré sempre é mais forte e aquele cheiro de morte estava por todo lado. 

Eu gostaria de entender a lógica das marés, não sei porque precisam ser tão fortes em dias tão normais como esse e tão devastadores nos dias mais sombrios. Na baixa e na alta, nunca vai embora, está sempre na espreita pronto para engolir braços, pernas e histórias. 

São Gonçalo, 2024



sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Sobre uma Criminosa

 Nem sempre é possível escrever uma crônica suave, pois nem sempre a vida é uma música do Frank Sinatra. Mas hoje olhei disfarçado para aquele furacão e só o que consegui sentir foi um friozinho profundo na espinha. Era como se eu pudesse escutar ao fundo “I’ve got a crush on you” tocando enquanto eu a admirava com aquele belo vestido preto. Os últimos tempos não têm sido fáceis, mas às vezes me pego um pouco distraído e quando percebo já estou com a cabeça distante, lá naqueles dias. Não sei o que acontece, é só um impulso que acomete minhas entranhas e me faz pensar coisas, imaginar coisas, lembrar de coisas. Sério, acho um absurdo uma pessoa ser tão bonita assim, de verdade, deveria ser crime. (Um em que eu definitivamente teria que ser o juiz, júri e executor).

Tem dias que eu queria conseguir dizer as coisas de forma mais clara, tem dias que meu maior sonho era ser um homem que não escreve uma crônica sobre a profunda complexidade de estar querendo muito beijar a boca de uma alguém específica. 

A perversão é condenada socialmente, a idealização ainda mais, e não tenho mais saída. Só nos resta o bom e velho cotidiano dramático. 

- São Gonçalo, 2023

O Alcântara

Descer do ônibus em frente ao pátio é como descer na terra do asfalto, do lixo, do esgoto, do calor e do fim do mundo. À primeira vista Alcâ...